domingo, 21 de novembro de 2010

Bullying, uma realidade para além dos portões da escola




Agressão física e verbal, ridicularização, humilhação, constrangimento, intimidação e inúmeras outras formas de violência, praticadas de forma frequente na escola, entre um aluno e outro, ou um grupo contra outros são denominadas bullying. Este termo, em inglês, deriva das palavras bull (touro, sinônimo de força) e bully (brigão, valente, forte). Visto por muitos como uma brincadeira de mau gosto, este fenômeno não é novidade, infelizmente existe há muito tempo. Pesquisas sobre o tema  iniciadas em 1978, na Noruega, e no Brasil, no ano de 2001, apontam que o bullying acontece em diferentes países e, praticamente, em todas as escolas, da Educação Infantil até o Ensino Superior. Filmes, documentários, programas de debates e jornais abordam o assunto. Nos últimos anos, a sociedade, estarrecida, acompanhou reportagens sobre massacres promovidos em escolas por alunos, repetidas situações de violência entre jovens, de alunos para com seus professores e de professores contra seus alunos. Esta violência não acontece só na escola. No ambiente de trabalho é chamada de assédio moral. No ambiente familiar também atitudes de humilhação e ridicularização entre primos e irmãos podem ser observadas.
Quando acontece bullying, todos os envolvidos saem perdendo. Os agressores, aqueles que praticam a violência contra outrem, muitas vezes, já foram vítimas em outros tempos e passam a agredir para sentirem-se fortes, poderosos. As vítimas, geralmente são alunos mais tímidos, podem ser bons alunos e, portanto, ridicularizados, apelidados, constrangidos. Ou podem ter alguma dificuldade específica, terem algo em sua aparência ou jeito de ser que desperte as críticas constantes de alguns colegas. As testemunhas são aqueles que observam, percebem as agressões, mas não se envolvem diretamente, não tomam partido. Estes também podem ser considerados vítimas, uma vez que podem viver em estado de alerta, temendo ser, mais tarde, alvos de bullying. Para todos as consequências são negativas. Dificuldades de aprendizagem, isolamento, depressão, dificuldades de relacionamento e a possibilidade de tornarem-se jovens e adultos agressivos são heranças da violência vivida na escola.
Nesse contexto, devemos nos perguntar o porquê deste fenômeno. Não há uma resposta simples, uma vez que as causas e consequências do bullying são complexas. Vivemos em uma sociedade que gera competitividade e individualismo. Acompanhamos, todos os dias, situações de preconceito e intolerância em vários espaços sociais. A escola é mais um destes espaços, ela constitui a sociedade e é constituída por ela. Não há como separar a sociedade da escola e a escola da sociedade. O que acontece fora de seus portões constitui e interfere diretamente nas relações estabelecidas entre os sujeitos na escola. O sistema educacional vigente também estimula atitudes competitivas e  individualistas em detrimento da colaboração e do espírito de grupo. A obrigação, ainda que velada, de ser o melhor, o mais inteligente, o mais forte, o mais bonito, o mais popular, alimenta as situações de intolerância na escola.
A escola, como instituição que tem a responsabilidade social de contribuir para a formação intelectual e ética de crianças e jovens, precisa garantir que seus alunos convivam em um ambiente acolhedor, seguro, onde possam conviver de forma respeitosa, aprender e se desenvolver. Como assegurar isso? Simples, porém trabalhoso, requer atenção e esforço de todos: direção, professores, alunos, familiares. É preciso, em princípio, reconhecer que o bullying acontece na escola, mesmo que não chegue a atitudes extremas. Ao identificar um caso de bullying, por mais inofensivo que possa parecer, é preciso agir imediatamente, conversar com os alunos envolvidos e com suas famílias. Abordar o assunto de forma interdisciplinar, promover debates, fazer amplas campanhas de informação, esclarecimento e conscientização para professores, funcionários, alunos e familiares ajuda a conhecer o fenômeno e a combatê-lo. Observar se a metodologia adotada pela escola possibilita a inclusão da diversidade, a vivência da solidariedade, se acontece o trabalho com valores humanos, o que também é fundamental para que se estabeleçam relações mais éticas e respeitosas no ambiente escolar.
As crianças e os jovens devem ter assegurado o direito de frequentarem uma escola que os acolha como sujeitos históricos, com características próprias de aprender e de se relacionar. Há um jargão que diz que as crianças e jovens são o nosso futuro. Precisamos, portanto,pensar que eles são o nosso presente, dignos de atenção e cuidado, hoje. A escola, em parceria com as famílias, deve oferecer as condições para que crianças e jovens exerçam a sua cidadania plena agora. Nós, adultos, pais e educadores, temos de lutar por condições de vida mais justas para todos, pelo respeito à dignidade humana, pelo direito à singularidade, sem ferir o princípio da equidade de oportunidades e de acesso às práticas sociais. Quando as relações sociais tornarem-se mais justas e menos preconceituosas, certamente a intolerância e o desrespeito na escola diminuirão. Não podemos esperar que o contexto social mude para buscarmos formas de enfrentar o bullying na escola, no entanto, lutar para que esta mudança aconteça é responsabilidade de todos nós.
Ádria Assunção Santos de Paula
 Mestra em Psicologia do Desenvolvimento
       Psicóloga Escolar/Educacional do Externato São José
(Texto publicado no jornal O Popular, em 26 de dezembro de 2009.)